O conhecido dito popular “não deixe para amanhã o que pode fazer hoje”, que carrega uma considerável dose de Sapiência, merece nossa renovada consideração diante do empilhamento de catástrofes que virou a questão socioambiental no Brasil – este país que, segundo Eliane Brum, vem se especializando em ser um construtor de ruínas. Agora, parece que seguimos na mesma toada, crendo que podemos tranquilamente deixar para depois de amanhã ou para o ano que vem nossa ação coletiva neste planetinha pirado que arde com Gaia em tormenta.
Imensas fatias da população brasileira seguem confortavelmente entorpecidas, incapazes de acordar para a gravidade da situação, mesmo com o incremento no estrondo dos alarmes – e vão deixando tudo para depois. Absurdamente esperando Godots. Diante deste quadro de apatia cívica diante da emergência climática é que filmes como “O Amanhã é hoje – o drama de brasileiros impactados pelas mudanças climáticas” adquirem toda sua importância.
“Seis brasileiros, de cinco estados, contam como as mudanças climáticas impactaram suas vidas. A jovem indígena que tornou-se brigadista voluntária depois de um incêndio florestal sem precedentes; a pequena agricultora que enfrentou seis anos de seca; a comunidade caiçara centenária obrigada a mudar de território em razão da força do mar; o comerciante que viu seu negócio ser destruído pelas chuvas e deslizamentos que ceifaram centenas de vidas no Rio de Janeiro; o produtor de ostras penalizado pelo aumento da temperatura do mar; a mulher que perdeu dois carros, em uma cidade litorânea, para as ressacas que avançam na costa brasileira.
Sete organizações da sociedade civil uniram esforços para tirar da invisibilidade as histórias dos afetados pelas mudanças climáticas. São elas: Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, Artigo 19, Conectas Direitos Humanos, Engajamundo, Greenpeace, Instituto Alana e Instituto Socioambiental. A pedido delas, estudiosos do clima produziram dois documentos técnicos inéditos que apontam os riscos iminentes para as pessoas e para o planeta: “Mudanças climáticas, impactos e cenários para a Amazônia” e “A Amazônia precisa de uma economia do conhecimento da natureza”.” – SITE OFICIAL DO CURTA-METRAGEM DOCUMENTAL

No filme somos impactados por imagens e histórias da brava gente brasileira que já pena com as consequências da ebulição climática planetária. As histórias se espalham pelo território do país, retratando: a catástrofe em Nova Friburgo no Rio de Janeiro, em 2011, que ceifou mais de 900 vidas; o semiárido de Pernambuco, terra dos resilientes mandacarus, durante a gravíssima seca de 2012; o incremento das ressacas no litoral de São Paulo, sobretudo em Santos e na Ilha do Cardoso; além de várias transtornantes anomalias que ocorrem em Florianópolis ou no Rio Araguaia.
O filme foi publicado em 2018, ano eleitoral em que foi eleito presidente aquele que se revelou o mais ecocida e genocida dentre todos aqueles que já exerceram o cargo de presidente da república. A boiada passou e a Amazônia queimou enquanto o bolsonarismo se dedicava à sua aliança com o coronavírus na carnificina negacionista que custou mais de 700 mil vidas.
Filmes como este apontam caminhos que precisam ser mais percorridos pelos agentes culturais do audiovisual no Brasil. Precisamos urgentemente de mais filmes desta estirpe, e precisamos lutar para que tenham uma penetração mais massiva e uma capacidade de ampliada de impactar no debate público, caso queiramos que a arte fílmica em nosso país entre para a história não como cúmplice do colapso, mas como força que vai na contra-corrente do capitalismo extrativista e ecocida, afrontando também o agronegócio onidevastador, propondo rumos para que sejamos todos os regenerantes de Gaia.
Ciente da responsabilidade histórica dos artistas, A Casa de Vidro vem procurando fomentar nos agentes culturais de várias linguagens a expressividade audaz e um senso de urgência e irrefreável diante da intensa crise em que estamos imersos. O projeto artístico Fritos da Terra, em Goiânia, vem propondo de maneira vanguardista um artvismo alerta e acordada para as questões aqui tratadas: em canções como “Vertedouro” e “O Clima É Nóix”, escritas por Leonardo Vergara e Eduardo Carli, a banda aborda a mineração destrutiva que aniquilou toda a vida no Rio Doce, em Minas Gerais, território ancestral do Povo Krenak, e se insurge contra as causas da catástrofe climática.
Tem fogo causando estragos na beira d’estradas
Biomas queimando sem trégua, que devastação!
No rastro do pasto tão vasto tudo se degrada
Nós Fritos da Terra clamamos: re-florestação!
Eu vou te lembrar
Que a terra gira
Pra “nóix” dançar
Eu quero cantar:
Terra é esfera
A rodopiar
Tem gente sumindo na lama, virando planilha
Tem casas largadas, cidades-fantasma e o tal
Agrobiz do capeta, com Meta, o fogo espraia,
No atroz negócio de tudo querer desmatar.
Nós vamos clamar
Ecoutopia
Pr’outromundar
Nós vamos marchar
Em prol do clima
Bora marcar!
É tanto petróleo queimado que a Terra calcina
Tem gente que ainda enxerga num rio solução
Do planeta a sina vindoura será tão sombria
Se as bundas ficarem sentadas na vil inação
Eu sou quase nada
Sem “nóix” na trama
Quero me outrar
Nós somos o clima
Tamo na massa
Pra fermentar.
FRITOS DA TERRA
Canção manifesto que aborda a crise climática planetária e suas causas subjacentes, não poupando pedradas contra a Meta nem contra o Agrobiz do capeta, “O Clima É Nóix” que teve seu título inspirado em livro de Jonathan Safran Foer já analisado em detalhes aqui no website.
Esta composição em parceria de Vergara e Carli, autores também da primeira single lançada pelo grupo, “Sempre Caberá Mais Um”, possui elementos que a conectam aos movimentos folk e punk, já que se constitui como canção de protesto destinada a denunciar os horrores do mundo e anunciar outro mundo possível, revelando novas facetas do grupo musical goianiense com sua proposta de realizar um artvismo catártico, atento e forte diante principais urgências contemporâneas.
Alinhada com temáticas abordadas no Brasil sobretudo por artistas como Lenine, Carlos Rennó e El Efecto, a música possui como marca de originalidade uma confluência entre a percussão afro tocando o ritmo ijexá, herança do meio cultural de nascença da banda (o Coró de Pau e as oficinas percussivas de Mestre Alemão), mesclando-se com uma sonoridade de rock mais agressiva, que pode remeter ao punk, ao hardcore, ao grunge ou ao heavy rock de grupos como Rage Against the Machine.
O plano é gravá-la em um fonograma profissional futuramente, com os elementos voz, violão, guitarra, baixo, percussão e bateria, de modo a transmitir potência sonora e peso, gerando uma gravação de impacto, em que estejam destacadas a performance vocal extraordinária de Vergara e com ênfase na inteligibilidade da letra, considerando que os sentidos comunicados pela poesia não devem ser “soterrados” debaixo da massa de som, estando aí o maior desafio para a gravação da composição. Se você quer ajuda A Casa de Vidro a consumar a gravação desta canção dos Fritos da Terra a tempo dela estrear em todas as plataformas de streaming antes da COP 30 de Belém, você pode participar de nosso financiamento colaborativo via apoia-se, destinado a levantar R$2.000 até 31/08/25 que serão destinados à realização de um fonograma profissional, em prol do quão trabalharão os agentes culturais Leo Vergara, Eduardo Carli, Leon Duarte, Julio Oliveira, Willian Haubert, Qonan Beats e Emanuel Mastrella. Link aqui. Colabore!
A Casa de Vidro reforça seu compromisso, no décimo quinto ano de suas atividades ciberculturais, de continuar produzindo conteúdo informativo e crítico sobre os rumos da catástrofe climática, incluindo artigos sobre pensadores cruciais como Ghosh, Krznaric, Safran Foer, A. Krenak, D. Kopenawa, Viveiros de Castro etc., além de estar incentivando, em fluxo contínuo, através de seu ponto de cultura goianiense, uma produção cultural que não se demita covardemente de enfrentar o mais importante desafio de nossa geração – que é ao mesmo tempo a pré-condição para que futuras gerações possam herdar um planeta dotado de vivibilidade e não um distópico campo de ruínas invivíveis.
Para que a Terra não se torne inabitável, melhor não deixar para amanhã que podemos fazer hoje.
Carli, 23 de Junho de 2025
NOTA – A fotografia que abre este post pertence à série Submerged Portraits de Gideon Mendel: é um retrato de João Pereira de Araújo, morador de Taquari, Rio Branco, Brasil, em Março de 2015 – saiba mais em https://gideonmendel.com/submerged-portraits/
LEIA TAMBÉM NO SITE D’A CASA DE VIDRO:
Publicado em: 23/06/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia